Filosofia no Brasil? Uma resposta por Julio Cabrera
Durante nossa vida, é comum ouvirmos chavões como o “milagre grego” ou que “apenas é possível filosofar em alemão”. Essas expressões são resultados de um longo processo que, ao longo daquilo que chamamos de tradição do pensamento ocidental, desenvolveu-se sob uma forte perspectiva eurocentrada, isto é, moldada sob uma visão que tende a colocar pensadores europeus como os únicos expoentes na construção do pensamento filosófico das sociedades modernas.
Curiosamente, esses clichês acabam se tornando poderosos arautos.
Superam os muros da academia e penetram as camadas da massa. Travestidos como
expressões populares, passam a habitar nossos livros didáticos, utilizados
nas formações básicas, e em nossa, assim chamada, cultura popular. A consequência
deste processo é bem conhecida: a aceitação de uma espécie de hierarquia do
conhecimento, coisa que torna costumeira a ideia de que o pensamento filosófico
— rigoroso, culto e correto — tem endereço fixo, a saber, a Europa.
Diante deste dilema, alguns pensadores brasileiros fizeram ecoar
perguntas fundamentais. Por que a filosofia brasileira ainda não alcançou o
estatuto de originalidade e valor reconhecido? Podemos afirmar a existência de
uma tradição filosófica no Brasil? Se não, quais os limites ou dificuldades que
impedem tal contribuição; e como superá-los? Se sim, como explicar, por seu
grau de complexidade, aquilo que se chama Filosofia brasileira?
Com efeito, o interesse pelo estudo do pensamento no Brasil não é
recente. Todavia, foi apenas a partir do último século que ocorreu uma
importante guinada. Hoje, tornou-se abundante a literatura especializada,
estrangeira e nacional, a tratar deste tema. Apesar disso, mesmo que a parte da
academia interessada no estudo do pensamento no Brasil tenha alcançado algum
desenvolvimento, as questões com as quais tem de lidar ainda se encontram no
horizonte da descoberta — eis aí o trabalho hercúleo do intelectual brasileiro:
explicar não somente o estado de coisas, isto é, a conjuntura e organização de
um país em desenvolvimento, mas também, e mais essencialmente, justificar o
valor de seu empenho científico.
Assim, as respostas àquelas perguntas tornam-se, por vezes, desconcertantes. Esbarramo-nos sempre com novas questões: Existe, de fato, uma filosofia genuinamente nacional, quer dizer, uma filosofia brasileira? Outrossim, e de maneira mais fundamental, cabe-nos ainda perguntar: que é filosofia e brasilidade? Há algum sentido em combinar essas noções? Nesse debate, Julio Cabrera é certamente um expoente.
Não tenho pretensões de, nestas breves considerações, esgotar o assunto;
muito menos de apresentar respostas definitivas. Pretendo apenas expor um
caminho possível de reflexão tendo como base o pensamento do professor Cabrera,
exposto, principalmente, em dois de seus textos, nomeadamente, “Filosofar
desde o Brasil: além de uma questão 'nacional'” (2016) e “O que
significa dizer: Não existem filósofos no Brasil?” (2011). Além disso, vale
ressaltar, nossa reflexão não irá propor uma rejeição das influências do Velho
Mundo, como ficará exposto no decorrer do texto, mas um simples questionamento
da atual posição do Brasil no cenário filosófico.
O embate conceitual entre o que é “nacional” e o que é “universal” é o
fio condutor do empreendimento de Cabrera. Em seu texto “Não há filósofos no
Brasil?” (2011), ele promove uma reflexão repartindo a questão em
três setores: (a) o que significa “No Brasil”?; (b) o que significa “Filosofia”?;
e (c) o que significa “Não há”?. Da análise desses três novos enunciados,
ele expõe suas próprias teses, delimitando os motivos que nos levam à crença de
que não existem filósofos no Brasil. Apesar da ordem por ele proposta, acredito
que começar pela exposição de sua concepção de filosofia (b) seja mais fértil,
porque é nela que encontramos o caminho de toda sua análise. Falemos, pois, de
maneira preliminar, sobre a noção de filosofia sustentada por Cabrera.
1. Que significa filosofia?
Para Julio Cabrera, a filosofia é um tipo de ato singular do pensamento
que se caracteriza pelo
“estranhamento diante do ‘natural’ e do ‘dado’, com a dúvida diante do estabelecido e aceito, com a negação, a problematização e o desconforto”.
Tal atividade nasce de uma sensibilidade aguda; de um incômodo que,
muito embora particular, se comunica com o humano, porque é capaz de ser
expresso pela palavra escrita ou falada, e que, portanto, pode ser
compartilhado e experimentado universalmente. É nisto que consiste, para ele,
um ato singular de filosofia: não se trata meramente de um conteúdo
biográfico ou privado do filósofo ou de uma atividade profissional — o filósofo
não é meramente um técnico —, ou ainda — e este é um ponto importante — de um
universalismo europeu (ao contrário do que faz crer a concepção hoje vigente),
mas de uma atitude de apropriação de ideias. Assim, Kierkegaard, Marx e
Husserl filosofaram todos de um mesmo modo singular:
“fascinados por uma temática (social, epistemológica ou existencial), com muitas ideias, e com uma consciência muito aguda da importância crucial das questões abordadas, além de uma espantosa facilidade para exprimir-se em suas línguas”.
Não há muito mais o que falar sobre sua concepção de filosofia, precisamente porque, para ele, “filosofia é simplesmente filosofia” (2011). Mas, se a filosofia se caracteriza como certo tipo rigoroso de pensamento, que nasce, num primeiro momento, como urgência pessoal, mas que se desenvolve em um caráter amplo e atento à circunstância, ou seja, humano e universal, não seria o caso de afirmarmos que já temos esse tipo de atividade sendo exercida no Brasil? Ou será que todo pensamento desenvolvido aqui não deve ser considerado filosófico?
2. Que significa “no Brasil”?
Cabrera afirma que não há cabimento colocar questões sobre “filosofias
nacionais”, mas colocá-las, diz ele, é o sintoma de uma situação já instalada:
filósofos brasileiros não são estudados nos currículos de filosofia, nem são
apresentados em congressos e conferências. Por isso, uma boa parte da
comunidade acadêmica está convencida de que não existe filósofos no Brasil.
Se aceitarmos o modo como Cabrera compreende a filosofia, constataremos
que, de fato, não parece razoável colocar a questão em termos de “filosofias
nacionais”. Aceitar estas designações significaria dizer que o pensamento
filosófico produzido no Brasil, ou em qualquer outra nação, é de um certo
tipo, isto é, é formulado de uma maneira especificamente brasileira
e capaz de contribuir apenas com as questões brasileiras. Ao articular
sua crítica, Cabrera, certamente, não ignora aspectos de identidade. Quer dizer,
não ignora o fato de que todo pensador pensa a partir de um país e, portanto,
de uma língua e cultura, mas ressalta os perigos de se restringir a produção
filosófica a tal ponto que se torne mero ufanismo barato.
Há sim filosofia no Brasil, mas não isolada e desarticulada da esteira
do pensamento humano. O que significa dizer que, assim como na Alemanha,
França, Inglaterra, há, no Brasil, quem execute o ato singular do pensamento,
ou seja, há quem se incomode com as circunstâncias vigentes e esteja disposto a
pensá-las, ou melhor, necessita pensá-las. Resta saber apenas o porquê desses
filósofos serem ignorados:
"A tese universalista vigente torna desnecessariamente controverso que se fale de uma 'filosofia brasileira': já se sabe que a filosofia tem uma 'vocação universal', e não está atrelada a nações (isso é o que dizem). O primeiro que eu costumo responder a isto é: por que, então, a filosofia feita no Brasil não é estudada nos currículos das universidades ou apresentada em congressos de pós-graduações? Salvo que alguém sustente a extraordinária tese de que nada, absolutamente nada do que foi feito nos últimos dois séculos (pelo menos) por pensadores brasileiros tem qualquer valor, não começamos a suspeitar que esses autores são excluídos unicamente por serem brasileiros? E isso, não é a pura negação da tese universalista pelas avessas?"
Em outro texto, intitulado “O que significa dizer: Não existem
filósofos no Brasil?” (2011), Cabrera desenvolve de maneira mais específica
essa questão. Ele identifica duas concepções distintas de filosofia dentro da
academia brasileira: aqueles (universalistas) que compreendem a contribuição
brasileira à filosofia como resultado de um processo de formação de eruditos e
exegetas capazes de dialogar e contribuir com a tradição internacional por meio
da publicação de livros e artigos; e os (independentistas) críticos de um
suposto estado de subordinação do pensamento brasileiro em relação ao
pensamento filosófico internacional. Estes compreendem que o surgimento de uma filosofia
brasileira seria resultado de um processo de emancipação, isto é, de um
processo de rejeição das estruturas filosóficas estrangeiras ainda presente nas
mentes dos pensadores brasileiros — que os leva a copiar moldes externos em
lugar de pensar por si mesmos — e do enfoque nas questões nacionais. Em outras
palavras, para os independentistas, a filosofia brasileira deveria pensar
questões do Brasil e para o Brasil.
Cabrera parece nutrir, como já deve ter ficado claro, uma preferência
pela tese universalista — ainda que sua concepção do que é "universal"
não se assemelhe aquela ideia hoje vigente de um universalismo europeu. Para
ele a questão deve ser pensada em termos de uma “filosofia desde
o Brasil”, isto é, uma filosofia produzida em território nacional, mas que não
se restringe às questões brasileiras e que se desenvolve universalmente:
"Quando falo da minha preocupação pela filosofia NO BRASIL não estou erguendo uma grande tese metafísica sobre o 'ser nacional' brasileiro, nem ligando filosofia com peculiaridades nacionais. Lutar pela filosofia NO BRASIL significa para mim algo tão inofensivo e tão universal quanto: há brasileiros querendo filosofar, simplesmente isso, filosofar como filosofam os alemães, os franceses, os ingleses, os italianos, etc. Por que não deixar que o façam, ou que o tentem pelo menos? Por que não arriscar? Os brasileiros são também existentes inseguros e corroídos pela dúvida, seres-no-mundo como os alemães e os franceses. O brasileiro está tão bem equipado quanto o europeu ou o asiático para filosofar, porque as coisas o tocam e o apelam de uma maneira inadiável. Isso é o crucial; não importa que as suas bibliotecas não estejam tão bem equipadas. Filosofia no Brasil significa, pura e simplesmente, brasileiros querendo filosofar com as suas próprias forças reflexivas."
É evidente, me parece, que as questões brasileiras são a origem das
angústias e reflexões dos pensadores que aqui habitam, mas isso não os obriga a
restringir seu pensamento a um tipo de, como diz Cabrera, metafísica do “ser
nacional”. Mas é neste ponto que sua concordância com os universalistas
termina, porque ambas as correntes (universalista e independentista), apesar de
divergirem em método e objetivo, acabam por errar no mesmo ponto: tomam como
condição de possibilidade da filosofia no território nacional as transformações
políticas e socioculturais.
O espanto que essas abordagens provocam, diz Cabrera, se deve ao fato de
ambas sugerirem que um filósofo só pode surgir de um ambiente político, social
e cultural favorável:
“do ponto de vista universalista, devem-se preparar gerações de eruditos e comentadores, criando-se então uma comunidade de contribuidores [profissionais em filosofia] à filosofia internacional; do lado independentista, deve-se criar uma ‘massa crítica’ (para usar o jargão) capaz de ‘sacudir’ as estruturas da dependência cultural e preparar as condições para um pensamento independente”
Para ele, a filosofia (e seu ato singular) não surge de um preparo ou
contexto especificamente arranjado, mas da necessidade. O filósofo não começa a
pensar a partir de um quadro pré-arranjado, mas, ao contrário, pensa a partir
de suas próprias urgências e aflições, muito embora apelando para o que afeta a
todos. A filosofia não emerge desses “momentos oportunos” e “aguardados”. Pelo
contrário, parece ser justamente nos momentos de instabilidade e crise que o
pensamento filosófico se apresenta. Nesse sentido, a concepção de Cabrera sobre
o filosofar é radical, porque, em alguma medida, retorna à aurora do pensamento:
o espanto.
É claro que o estudo aprofundado e a construção de um pensamento mais
culto, pode ser um processo importante, capaz de proporcionar ferramentas
essenciais durante o exercício filosófico, mas será que é etapa sine qua non
do processo para se conceber um filósofo? Este talvez seja um questionamento
tão importante quanto a própria questão que é tema desta reflexão; mas, para
Cabrera, a resposta à esta pergunta é não. Em parte, como dito
anteriormente, o processo de erudição é, sem dúvida, grande aliado na
construção de uma bagagem intelectual, mas é justamente na espontaneidade e na,
já citada, capacidade de se apropriar das ideias e do mundo que o cerca, que o
filósofo se realiza. Ademais, não há motivos para acreditarmos que da
adversidade não pode surgir um pensamento autônomo e rigoroso; “um filósofo se
consolida também em oposição a suas falências”.
A vigência, seja ela qual for, já parece ser fértil o suficiente para o surgimento de um filósofo: é na sua análise que ele vai encontrar os elementos, efeitos, causas e princípios das coisas que são. A filosofia certamente não se restringe a mera posse de um diploma ou a uma jornada pelos corredores de uma biblioteca universitária, pelo contrário, é um movimento que começa de forma íntima, a partir de um espanto e de uma urgência; e que se desenvolve por meio da investigação rigorosa. Por isso, apesar de refletir os contextos socioculturais — movimento do qual nenhum pensamento rigoroso pode fugir — a discussão pelo surgimento de um pensamento desde o Brasil não deve passar pela idealização de um estágio social propício, mas sim, indagar-se sobre o sentido, método e objetivos de um pensamento filosófico.
3. O que significa “não há”?
Ao colocar a questão “não existem filósofos no Brasil?”, sua intenção
não é a de descobrir se existem, em território nacional, indivíduos capazes de
pensar filosoficamente. Isto, como vimos, já é assunto resolvido para ele: há
sim! Prova disto são seus alunos que ano após ano surgem agitados e afoitos por
responder suas próprias questões. Trata-se, portanto, de descobrir porque esses
indivíduos são ignorados.
Cabrera desloca o eixo da questão: não faz sentido perguntar sobre a
existência de uma filosofia no Brasil, pois não existe povo sem sistema
filosófico, seja ele epistemológico, metafísico, político ou ético. Mesmo
quando herdado — ou melhor, imposto; como é o caso, por exemplo, da própria
América Latina — esses sistemas sempre se transfiguram, isto é, se tornam
outro, resultado da especificidade daquela sociedade. Nesse sentido, deve-se
combater essa visão futurista de que "um dia, quem sabe, se tudo der
certo, a filosofia ainda vai surgir triunfante em terras americanas".
Isto é balela. Na realidade, o que nos resta agora é pensar a própria
instituição acadêmica e seus sistemas hierárquicos de valor:
"Já existem filósofos no Brasil, mas não mecanismo de acesso a eles: existem já filósofos brasileiros (e argentinos, e chilenos, e bolivianos e paraguaios. E indianos, e japoneses e africanos, pois como pode um povo existir sem filosofia?). O que não existe são os mecanismos, institucionais e valorativos, para poder visualizá-los. De nada serve que uma atividade exista se a lógica da distribuição de informação impede que as pessoas a vejam. A “existência” de algo passa pela política da informação: a ontologia foi informatizada. Hoje nós temos um aparato de informação que nos permite visualizar todo tipo de trabalhos alemães e norte-americanos, mas que nos impede a visualização de grandes esforços reflexivos sul-americanos. A "não existência" de filosofia no Brasil (e em muitos outros países) é um efeito produzido pela particular distribuição da informação hoje dominante no mundo, pela particular estrutura das instituições de ensino e de pesquisa, e por ideias unilaterais do que seja ter ou não valor como filosofia. Alterando estas condições, começaremos a "ver" os nossos filósofos, ou seja, quando deixarmos de buscá-los nos lugares errados e com as imagens e expectativas erradas."
Os filósofos e pensadores brasileiros — e latino-americanos — existem. O
que não existe, são os mecanismos para podermos acessá-los e visualizá-los. Há
uma lógica interna que tende a eleger temas e autores específicos em detrimento
de outros. E não me entenda mal, não quero dizer com isso que o processo de
escolha seja um problema propriamente dito. Afinal, escolher é, em certa
medida, excluir. Nem pretendo aceitar o radicalismo independentista que toma
como cerne de seu movimento a rejeição do chamado "conhecimento
canônico". O problema está, entretanto, na existência de um sistema
unilateral que julga o que é filosofia e o que não é. Daí a suposta “não
existência” de um pensamento que tenha valor no Brasil.
Por que não incluir no currículo uma bibliografia nacional? Há
pensamento autoral no Brasil! Um pensamento não meramente ufanista, restrito às
"questões nacionais". Por que não abrir espaço para a exposição
desses trabalhos? Seria tão grave, por exemplo, incluir nas discussões (congressos,
seminários, revistas e aulas) sobre filosofia pessimista, a notável
contribuição de Cabrera para o assunto (A ética e suas negações, 1889. Mal-estar
e moralidade: situação humana, ética e procriação responsável, 2018)? Ou,
nas discussões sobre o tema do Amor, o recente trabalho desenvolvido por
Renato Nogueira (Por que amamos, 2020)? Ou os notáveis e abundantes
trabalhos relacionados à crítica marxista? Ou os trabalhos acerca do
antropoceno de Davi Kopenawa (A queda do céu, 2015) e Ailton Krenak (Ideias
para adiar o fim do mundo, 2019. O amanhã não está à venda, 2020)?
Ou mesmo aqueles referentes à própria História da filosofia do Brasil, como o
desenvolvido pelo professor Paulo Margutti (História da filosofia do Brasil.
Volume I: o período colonial, 2013). Etc, etc. Ou será que, como supõe
Safatle (2016), a dificuldade de se constituir uma comunidade filosófica
autoral no Brasil está restrita à uma disputa de ego inerente às relações
institucionais do país?
"Por alguma razão que valeria a pena analisar, as relações acadêmicas de transmissão são vivenciadas entre nós como relações de filiação. [...] Dentro de relações de filiação, os não pertencentes ao grupo simplesmente não existem, não são levados em conta, falam línguas estranhas, fazem 'tudo errado' e (este é um clássico) não leem direito. Como tais relações de filiação ainda interferem de maneira decisiva na definição de postos de trabalho e sobrevivência material, o problema está completamente armado e a filosofia como campo necessariamente naufragará. Em um espaço de filiados nunca poderá existir debate. Poderá existir apenas aplausos e silêncio."
De qualquer modo, algo fica evidente: a “não existência de filósofos no
Brasil” é meramente uma questão de visibilidade, ou seja, é consequência de
mecanismos institucionais que ocultam qualquer ato singular de filosofar. Ao
formular sua crítica, ao meu ver, Cabrera acaba por se aproximar também da
concepção independentista. Talvez sua proposta tenha o mérito de ter alcançado
uma mediana: defende uma produção filosófica desde o Brasil, que
não rompe com a tradição europeia, porque preserva uma concepção universal de
filosofia, mas que surge de uma postura histórico-circunstancial e crítica com
relação ao seu passado (de invasão e exploração colonial), em lugar de
continuar "tentando oferecer alguma contribuição" nunca solicitada
pela cultura do dominador. Cabrera conclui:
“A queixa da 'falta de filósofos no Brasil' é, assim, largamente inconsciente dessa falta ser gerada pelo próprio mecanismo de produção e avaliação brasileiro de filosofia. Não é um fenômeno 'objetivo'."
REFERÊNCIAS
CABRERA, Julio. O que significa dizer: “Não existem filósofos no
Brasil”? 2011. Disponível em:
<http://filosofojuliocabrera.blogspot.com/2011/08/filosofia-no-brasil-e-na-america-latina.html>.
_____. Filosofar desde Brasil: Além de uma mera questão “nacional”.
2016. Disponível em: <
http://anpof.org/portal/index.php/en/comunidade/coluna-anpof/1032-filosofar-desde-brasil-alem-de-uma-mera-questao-nacional-acerca-de-um-texto-de-haddock-lobo-e-uma-replica-de-vladimir-safatle>.
SAFATLE, Vladimir Pinheiro. Seria necessário algo como uma filosofia brasileira?. 2016. Disponível em: <Seria necessário algo como uma filosofia brasileira? | ANPOF>
